Por que consumir em feiras?

Por que consumir em feiras?

Por Laís Azevedo

Quando passamos por uma feira na nossa cidade podemos enxergá-la de duas formas:

  1. Mais uma forma de comércio, um mercado, talvez com preços mais baixos ou altos.

2. Um local de trocas, cultura e arte, com impacto econômico, social e ambiental.

Talvez o segundo seja uma das maiores motivações dos frequentadores desses ambientes, ou um meio termo entre as duas opções. A verdade é que tomando a decisão de consumir em uma feira direto do produtor, agroecológica, familiar e/ou orgânica, talvez não façamos ideia do incentivo que damos a um ciclo de consumo como esse. Consumir é um ato político e podemos gerar grandes mudanças escolhendo bem onde faremos isso. Essas mudanças são o resultado de algumas vantagens que as feiras livres têm sob as outras formas de mercado, por exemplo:

1: Relação direta com o produtor:

Feiras livres podem ser caracterizadas através do conceito francês de Circuitos Curtos (CC). Nesse tipo de circuito, a comercialização pode ser por vendas diretas, ou seja, a mesma família que produz, vende, ou no máximo com 1 intermediário, que pode ser uma cooperativa ou uma associação (CHAFFOTE; CHIFFOLEAU, 2007). Essa forma de comércio é bem diferente de supermercados, onde o alimento passa por, no mínimo, dois intermediários. Desta forma, quando frequentamos um Circuito Curto temos uma relação direta com quem produz o que estamos comprando.

Essa relação traz benefícios de relevância irrefutável, ao formar uma verdadeira teia de relações entre produtor agricultor, sendo um lugar de troca não apenas material, como social, histórico e cultural. O consumidor pode passar a dar mais valor ao produto, sabe de onde vem, sabe quem plantou, enxerga a complexidade dessa cadeia e talvez nem se importe quando a fruta “não tá tão bonita”. Da mesma forma, o agricultor sente a gratificação de ter seu trabalho reconhecido, vê quem vai literalmente comer o que ele plantou, além de receber um valor muito mais justo, já que o produto não precisará passar por intermediários.

Anjos et al. (2005) percebeu que os feirantes ecológicos de Pelotas mantêm uma relação bastante próxima com seus consumidores, de forma que eles “reconheçam o caráter diferenciado dos produtos obtidos e dos processos que lhes originaram”

(ANJOS et al., 2005, p. 145).

2. Sustentabilidade:

A feira sustenta um caráter sustentável direto e indireto, principalmente ao compará-las com grandes supermercados. Ela contribui nessa questão, através de algumas características:

• Sazonalidade: Agricultores orgânicos e ecológicos sempre respeitam a sazonalidade, ou seja, o tempo da natureza para o plantio de cada cultura, considerando a estação, o solo, a umidade e etc. Mesmo aqueles produtores que não são necessariamente orgânicos, majoritariamente respeitam essa “regra” natural, isso porque plantar fora de época necessita muita mão de obra, mecanização e insumos químicos, o que geralmente não é comum em pequenas fazendas de família. E esse é um dos pontos que torna a feira mais sustentável: lá não tem manga no inverno no Rio Grande do Sul, por exemplo, mas no supermercado é possível que tenha. O que não vemos é que para ir “contra” esse ciclo natural da estação, precisa-se transportar produtos de outros estados ou introduzir muitos agrotóxicos e fertilizantes na produção, contribuindo negativamente com a sustentabilidade.

• Alimentos orgânicos ou com poucos agrotóxicos: Que o uso do agrotóxico não é amigo do meio ambiente não é novidade pra ninguém, e feiras livres trabalham exclusivamente ou em maioria com produtos baixos ou nulos de insumos químicos. Mas deixemos o tema “agrotóxicos” para uma próxima discussão.

• Transporte reduzido: Uma das prioridades das feiras é encurtar a cadeia de produção, ou seja, trazer produtores da mesma cidade ou de cidades vizinhas para vender seus produtos. Isso reduz uma série de intermediários, além de que, nunca vamos comer uma fruta que atravessou o país no dia anterior para chegar até nós. Em consequência desse encurtamento, reduz-se o tráfego rodoviário, reduzindo a utilização de combustíveis e consequentemente a emissão de gases do efeito estufa.

3. Fortalecimento da economia local:

Como a feira é um espaço em que pode-se inserir produtos, também acaba fazendo parte da “economia e da cultura dessas regiões: abastecem as cidades pequenas e distantes das rotas de distribuição de alimentos, por isso escoa a produção de lavradores” (RIBEIRO et al., 2006, p. 2). Dessa forma, a feira contribui para a economia local através da circulação de dinheiro no comércio. Elas se tornam espaços de empoderamento econômico para o feirante, seja pelo acesso aos mercados locais ou estabelecimento de relações comerciais e sociais com o urbano.

A dinamização da economia local pelo poder público – neste caso, através das feiras – deve buscar a sustentabilidade e a essência das características locais. Estratégias de desenvolvimento nessa direção podem valorizar o lugar, fomentando a identidade cultural.

CARPEGEANI & FILHO, 2009).

Eaí? Ficou convencido? Se sim, procura o local mais perto de ti, pega tua ecobag e vai pra feira!

Referências:

PEREIRA, Viviane e colaboradores. A FEIRA-LIVRE COMO IMPORTANTE MERCADO PARA A AGRICULTURA FAMILIAR EM CONCEIÇÃO DO MATO DENTRO (MG). Revista Ciências Humanas – Educação e Desenvolvimento Humano – UNITAU, Taubaté/SP – Brasil, v. 10, edição 20, Dezembro 2017. ARAÚJO, Alexandre e colaboradores. Feiras e desenvolvimento: impactos de feiras livres do comércio urbano no Jequitinhonha. Revista brasileira de Planejamento e Desenvolvimento, Curitiba, , v. 7, n. 2, p. 300-327, mai./ago. 2018.

LAMINE, Claire e colaboradores. A diversidade dos circuitos curtos de alimentos ecológicos: ensinamentos do caso brasileiro e francês. Agriculturas, v. 10, n. 2, junho de 2013. Disponível em <http://191.241.229.250/bitstream/handle/11465/595/91.pdf?sequence=1&isAllowed> Acesso em março de 2021.

RIBEIRO, Eduardo; ARAÚJO, Alexandre. Feiras, feirantes e abastecimento: uma revisão da bibliografia brasileira sobre comercialização nas feiras livres.

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